terça-feira, 22 de março de 2011

Para onde caminhamos?

Nesta semana duas notícias veiculadas pela mídia virtual me chamaram a atenção para discutir o tema “saúde do trabalhador”:

  • uma diz respeito à postagem de dois servidores da Secretaria da Fazenda em um blog conhecido aqui em Florianópolis;
  • e outro refere-se a um vídeo caseiro que tem como protagonista um policial militar em um, como a mídia mesmo noticiou, “ataque de fúria”.

Os comentários do blog

A primeira situação ocorreu no dia 19/03/2011 no blog do colunista Paulo Alceu1, no espaço destinado à nota do leitor. Pois bem, dois leitores resolveram postar suas desconexas opiniões sobre a luta salarial dos servidores públicos estaduais.

Um dos comentários, intitulado “Inveja”, deixou transparecer o posicionamento pouco crítico e extremamente ensimesmado de um servidor da Secretaria da Fazenda que termina seu discurso dizendo: “O que eles precisam entender, é que nascem para ser administrativo, jamais será fazendário”(sic);

Um outro colega atribui, no mesmo blog, a responsabilidade dos baixos salários pagos na saúde, educação e segurança pública à ineficiência dos próprios profissionais que não conseguem garantir à sociedade um serviço de qualidade, por tanto não poderiam sequer exigir melhores salários.

Ora, pela visão do servidor fazendário podemos então concluir que a vergonhosa remuneração atrelada às atividades constantes no dia a dia penoso do professor, do enfermeiro, do policial nada tem a ver com a finalidade de suas atividades ou a gestão dos serviços. O mau funcionamento da saúde, educação e segurança pública justifica o baixo salário, e não o contrário.

O vídeo do policial

Já no dia 21/03/2011 tomei conhecimento do caso de um Policial Militar de Joinville/SC que foi filmado2 por moradores do local onde o PM havia ido para atender um chamado.

Houve confronto indireto com os próprios moradores. O desfecho da situação terminou com o servidor policial colocando sua arma no chão, tirando sua farda, ficando só de cueca no meio da rua e denunciando a precariedade da remuneração em contraste com as complexas demandas encontradas na própria natureza de sua tarefa;

Ele diz que não aguenta mais a situação de ter que ganhar tão pouco e ainda ter que aguentar desaforos. 

Aspectos a serem considerados

É óbvio que tanto em um caso quanto no outro a questão de saúde ou até de sanidade do trabalhador não transita exclusivamente pela questão salarial.

As relações de trabalho entre servidores de uma mesma instituição e entre servidores de instituições distintas perpassa pela própria concepção do que seja o “serviço público”. Muitos perderam essa noção de que só existem seus cargos, atribuições e salários por que existe uma demanda que emana da sociedade organizada.

Realizar bem seu trabalho não implica apenas em dar uma boa aula, fazer uma cirurgia, garantir a segurança da população, mas implica também em:
  • saber conviver com um salário que não tem reajuste há mais de cinco anos, e nem estamos falando em aumento, estamos falando em reposição de acordo com a inflação;
  • terminar um plantão de 24 horas dentro de uma penitenciária ou da emergência de um hospital  sem sair de lá exaurido pela grande demanda de trabalho, a escassez de materiais  e o baixo número de servidores;
  • conseguir não adoecer diante de uma realidade cotidiana de situações de abuso de poder e corrupção.

Realizar bem seu trabalho implica em perceber que a gestão da instituição não circunscreve seu próprio umbigo, ao invés disso, gerir a máquina pública implica também em trazer estabilidade funcional a seus servidores para que TODOS possam de fato servir à sociedade com qualidade.

O amparo institucional para a saúde do trabalhador ainda caminha a passos curtos. É hora dos gestores perceberem que existe uma legislação de saúde ocupacional que se impõe e que há que se implantar a gestão da saúde do trabalhador como uma política de Estado.

  •  Altos salários não são garantia de saúde, mas a uniformidade da remuneração dos servidores devolve a dignidade do trabalhador e estabiliza alguns conflitos;
  • a questão de poder que uma secretaria acredita ter em relação à outra, as inimizades entre servidores de secretarias diferentes e a falta de comprometimento político de alguns agentes públicos só faz aumentar a ineficiência dos serviços prestados.

As duas situações ocorridas e aqui relatadas refletem a dicotomia da realidade do trabalhador público estadual. De um lado a visão estigmatizante de um colega de trabalho que apoia-se numa política de remuneração precária e insuficiente, e de outro a exaustão psicofísica de um trabalhador sem amparo institucional que o pudesse acolher antes do colapso.

Não podemos admitir que a farda e a dignidade abandonadas no meio da rua pelo policial militar seja desvinculada da maneira desdenhosa com que o servidor público em geral vem sendo tratado ao longo de sua história. Há que se repensar a maneira como o trabalho se organiza em cada espaço laboral, observando em que condições de trabalho o servidor se insere e quais as demandas que cabem ao Estado suprir para que a distância entre a realidade de um servidor e de outro não continue sendo esse abismo aparentemente inconciliável.



quinta-feira, 17 de março de 2011

Contextualizando

Neste espaço disponibilizarei algumas informações sobre meu trabalho no Governo do estado de Santa Catarina. Minha atuação como Psicóloga do Trabalho transita em questões referentes à saúde do trabalhador – o servidor público estadual.

Concursada, desde setembro de 2009 venho lidando com gestão de políticas de saúde ocupacional e concessão do benefício de acidente/doença do trabalho quando este é motivado por Transtornos Mentais e Comportamentais descritos no Capítulo V do Código Internacional de Doenças, 10ª edição – CID 10 – que contempla os comumente chamados CID F. Neste sentido, descortinam-se duas frentes de atuação profissional, quais sejam:

  • a normatização, coordenação, supervisão, regulação, controle e fiscalização das atividades relacionadas à saúde ocupacional do servidor público estadual;
  • a perícia psicológica do trabalho em processos de caracterização estadual de acidente/doença de trabalho, mediante procedimentos administrativos de Comunicação Estadual de Acidente de Trabalho – CEAT.

Durante minha graduação na Universidade Paranaense entrei em contato com a fenomenologia, o existencialismo e a filosofia de maneira geral através de pessoas que foram importantes mediadoras dessa relação que até hoje procuro manter com a abordagem existencialista sartreana. Desde sempre busquei o enfoque dessa abordagem para nortear minha ação profissional.

Aqui tratarei de eixos temáticos como: psicologia do trabalho, saúde mental, gestão de saúde do trabalhador, perícia psicológica do trabalho, fenomenologia e existencialismo sartreano. Trarei ainda assuntos correlatos como: política de saúde ocupacional; acidente/doença do trabalho, nexo causal, conflitos no trabalho, assédio moral, relações de poder, entre outros. 


Desempenho minhas atribuições na Gerência de Saúde Ocupacional (GESAO) que pertence à Diretoria de Saúde do Servidor (DSAS), que por sua vez pertence à Secretaria de Estado da Administração (SEA) no estado de Santa Catarina. Para conhecer um pouco mais sobre o trabalho da GESAO acesse o portal do servidor clicando aqui.