No dia 02 de maio comemora-se o Dia Nacional de Luta contra o Assédio Moral, instituído pelo já aprovado Projeto de Lei nº4.326/2004 de iniciativa da Deputada Federal Maria José da Conceição Maninha.
O assédio moral é um fenômeno em que há a submissão da vítima a práticas repetitivas e prolongadas de condutas de violência psicológica extrema, em que prevalecem relações desumanas sem ética, e com comunicação hostil. Essas atitudes podem ocasionar dano físico e psicológico na pessoa vitimada, gerando adoecimento, incapacidade e até a morte.
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| Imagem retirada do "Site Assédio Moral no Trabalho" www.assediomoral.org |
Sob o olhar da abordagem existencialista sartreana sobre este fenômeno, podemos pensar no assédio moral como uma tentativa do Outro objetivar o meu ser e tentar cercear minha liberdade.
Se pensamos o homem com a compreensão de que este é uma liberdade em movimento e que escolhe-se cotidianamente através de seus atos, podemos também pensar o Outro como uma liberdade, tal qual qualquer homem. Assim, quando tenho diante de mim um algoz que de várias maneiras tenta cercear minha liberdade de escolha e roubar minha dignidade através de humilhações, gritos, agressões generalizadas, e eu, por conseqüência, me coloco diante do olhar deste Outro como essa vítima a ser aprisionada, temos o assédio moral como eixo condutor dessa relação de poder.
Inicialmente as ações do algoz parecem ser isoladas e desconexas, mas com o passar do tempo as agressões (geralmente veladas) tornam-se mais intensas e dirigidas a um alvo específico, a vítima do assédio moral.
Se permito, por qualquer motivação que posso ter, que o Outro me objetive como alguém indefeso e que encontra-se desprovido de poder de reação, aos poucos vou sendo para o Outro um alvo fácil de sua manipulação. De fato a relação passa a ser significada como desigual quanto ao poder que a vítima e o algoz tem, um diante do outro. A vítima se sente totalmente inviabilizada frente ao seu agressor, e o algoz sente que tem em suas mãos o poder de controlar a liberdade do outro, garantindo que ele (a vítima) não será obstáculo para a realização de seu projeto.
Como olhamos para a relação algoz/vítima de assédio moral somente quando a situação já está com desfechos de difícil resolução, temos a míope visão de que “o algoz sempre foi assim” e que seu poder é intransponível; e a vítima, por sua vez, é um ser humano indefeso que não tem condições de almejar qualquer reação à situação de assédio.
De fato, o assédio moral pressupõe como possíveis conseqüências o adoecimento da pessoa que é assediada, trazendo graves repercussões na saúde do sujeito, e pode fazer com que a vítima se sinta cada vez mais impotente e fragilizada, chegando inclusive a cometer suicídio; mas não podemos diante disso pensar que o Outro é o único responsável pelo meu sofrimento e que eu nada posso fazer a respeito. Desta forma, fico paralisado, esperando que o Outro venha e me tire dessa situação de dor. Atribuo, assim, unicamente ao Outro a possibilidade de transcender a esta situação que me adoece.
Ao passo que a vítima assim se posiciona, como vítima, fica cada vez mais distante a possibilidade de tomar novamente em suas mãos sua liberdade aprisionada. Ainda que em sofrimento e dentro de um contexto de limitações e contingências, o homem é ontologicamente livre e não pode não o ser.
O que eu gostaria de sinalizar frente a este movimento de lutar contra o assédio moral, principalmente no contexto do trabalho, que é onde atuo profissionalmente, é que possamos nós, seres humanos, sermos uns para os outros mediações importantes para amparar pessoas vitimizadas pelo assédio moral, acolhendo-as e orientando-as quanto às possibilidades de enfrentamento da situação. Que possamos nós, psicólogos, sermos interlocutores para a minimização dos efeitos dos conflitos interpessoais e que busquemos sempre promover relações humanas com mais alteridade e ética.

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